
Os quintais da minha infância insistiam em me enganar e me fazer mentirosa. Eu encontrava pé de tudo quanto é coisa: de abobrinha, de banana,de jabuticaba mas nunca o mais valioso de todos: o sonhado pé de cachimbo.Cresci com a memória da minha frustração em achar um pé de cachimbo. Vivi feliz com ela até o exato momento em que um primo sabichão me revelou o que para mim seria uma tragédia: “Hoje é domingo, pede cachimbo”. Pede? Como assim?...... Traidor domingo que pede cachimbo. Que pede o sentar-se descansadamente com o troço de madeira, osso ou sei lá o que mais entre os lábios. Pede, do verbo pedir, presente do indicativo, terceira pessoa do singular. O domingo pede cachimbo. Por que, domingo? Não podias ter pedido um bolo? Um suco detox? Um chinelo? Por que me traíste? Eu que te amava tanto. Que em tuas manhãs e tardes fazia nada e procurava pés de cachimbo pelos quintais, enquanto o mundo, lá longe, muito longe, se acaba nas insuportáveis intrigas de adultos. Por que me traíste pedindo o miserável cachimbo? Para mim, hoje ainda é “domingo, PÉ de cachimbo”. E que se dane o próximo domingo, o domingo (in)feliz, que com sua falta de criatividade se arrastara pedindo coisas e destruindo memórias.....
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**próximo domingo
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