
de repente, sinto-me irremediavelmente criança e sem as amarras do quotidiano. hoje quero comer morangos, tingir a língua, piscar o olho para um ser imaginário, molhar a boca com o vinho apropriado aos dias frios, lembrar que vi abelhas enlouquecidas, divagar sem me prender ao pensamento, repassar álbuns de retratos, me ver feliz, ouvir pela décima vez a mesma música, andar descalça, fazer apenas uma oração, conjurar os anjos, brincar com as salamandras diminutas das chamas das velas, colocar as mãos sobre o fogo, viver a fração do tempo como um beija-flor na proeza do voo. nesta noite, quero me dedicar ao extremo ato das coisas simples, uma outra espécie de transbordamento, a devoção a cada hora vivida, o ritual dos tolos, o ritual dos sábios. hoje parei o futuro.
